quarta-feira, 17 de junho de 2009

Entrevista - O trunfo das construtoras "emergentes"

A vez dos emergentes
Consultor explica por que construtoras de países desenvolvidos estão perdendo espaço no mercado mundial de construção.


Nilton Vargas


Nilton Vargas é um dos consultores mais experientes e conceituados do setor. Formado em engenharia de produção em 1971, logo enveredou para a construção civil, atraído pela magnitude da indústria que mais se desenvolvia naquela "época de Brasil grande", como define. Foi engenheiro de planejamento e passou dez anos no ambiente acadêmico, como professor e pesquisador. Nunca, entretanto, abandonou o cotidiano das construtoras - nem mesmo quando, já no campo da consultoria, prestou serviços a organizações de outros segmentos.

Calcula que já tenha atuado em aproximadamente 300 empresas de construção, de todos os portes e em todos os cantos do País, realizando tanto consultoria direta quanto programas educacionais. Seu currículo inclui passagens por gigantes como Camargo Corrêa, OAS e Norberto Odebrecht - esta última pela qual vem trabalhando fortemente na América Latina, África e Europa.

No mês passado, Vargas defendeu tese na Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), com o tema "organizações em ambientes internacionais turbulentos: estudo de caso de uma construtora multinacional brasileira". Na entrevista a seguir, discorre suas impressões sobre o boom que vive o setor - e suas conseqüências na gestão tecnológica e profissional -, a expansão de empresas emergentes no mercado estrangeiro, entre outros temas.

Qual o atual panorama do mercado internacional da construção?
Há alguns números que são impressionantes. As 225 maiores empresas de construção que atuam no exterior respondem por cerca de 4% de todo o faturamento no mundo do mercado internacional. Apenas as dez primeiras da lista detêm 50% do faturamento internacional. O que significa que o mercado lá fora é concentrado, de gente grande. Para entrar, existem barreiras de todo tipo. Um fenômeno recente foi o aumento na participação de empresas dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). Em 1990, elas representavam 1% do mercado internacional. Em 2006, esse índice chegou a 9%. Hoje faturam mais do que as empresas japonesas, que sempre foram muito fortes.

O que possibilitou a entrada mais forte dessas empresas no mercado?
Os países desenvolvidos estão em crise econômica. O boom de crescimento mundial hoje se concentra nos países em desenvolvimento - China, Ásia de forma geral, África, América Latina. A capacidade de sobrevivência das BRICs em mercados dessa natureza, onde as instituições são muito frágeis, tem permitido a elas se firmarem. Essas empresas [de países emergentes] estão acostumadas a trabalhar em ambientes nos quais as empresas de países desenvolvidos enfrentam dificuldades, na medida em que foram criadas, e se desenvolveram, onde as instituições são estáveis.

O que você observa em relação às empresas de menor porte que ingressam no exterior?
Tenho visto um total despreparo principalmente dessas pequenas e médias empresas, que estão indo para os mercados externos sem entender a realidade institucional e cultural dos países. Cito um exemplo: se em Angola há um boom imobiliário, o empresário pega o preço do metro quadrado vendido lá, compara com o do Brasil e pensa: "com a diferença, consigo ter uma lucratividade extraordinária". Mas, para começar, em Angola não se produz nada - tem que importar. Uma encomenda demora no mínimo três meses para chegar. No caso da mão-de-obra, o custo é semelhante ao daqui, mas a produtividade lá equivale à metade da brasileira. E não é só isso: o custo de alojamento de um engenheiro, por exemplo, é altíssimo. Fazer obras, a questão técnica, não digo que é fácil, mas é bastante dominado - e se não domino, contrato um consultor para me ensinar. O desafio está em lidar com aspectos sociais, políticos, com instituições que mudam a regra o tempo todo, em ambientes onde tudo depende da pessoa que está no cargo.


Qual a importância de as empresas desenvolveram programas socioambientais junto às comunidades próximas às obras?
A atuação com a comunidade é um fator mais do que estratégico, tanto no Brasil como no exterior. Os resultados são palpáveis no curto prazo. Primeiro porque existe hoje, no lado ambiental, uma consciência muitas vezes refletida em organizações não-governamentais que colocam barreiras e simplesmente impedem a execução da obra. Se a empresa não busca transformar essa potencial ameaça numa oportunidade de trabalhar a favor das comunidades e do ambiente, vai sofrer sabotagens de todo tipo.

Você recomenda que exista nas empresas um setor específico que trate desse assunto?
Esse é um equívoco, e acontece muito. Não é criando setor que se resolve o problema. Se essa consciência não for transformada numa verdadeira cultura na empresa, não é um departamento centralizado que tornará importantes essas questões de responsabilidade socioambiental. Têm de ser mudados os valores - e quem muda valor é o empresário. Uma vez que o empresário acredita nesses conceitos, os valores passam para os engenheiros, para os encarregados e, finalmente, para os trabalhadores.

Como as empresas devem se portar em situações de crise ou de ocorrência de acidentes?
As pessoas não se preparam para ocorrências de imprevisibilidade tão características do setor. Quando algo acontece, não sabem como lidar, aí o desastre está feito. A empresa deve sempre considerar um plano B, um plano de emergência com comitê de crise. Um exemplo: dei consultoria no projeto do metrô de Caracas, na Venezuela. Abrimos uma valeta para escavação em frente ao maior centro populacional da cidade, onde viviam quatro mil famílias. Pensou-se o seguinte: e se acontecer um incêndio nesse complexo habitacional? Como o corpo de bombeiros terá acesso? Montou-se então toda uma estratégia para essa possibilidade. E o que ocorreu? Um grande incêndio numa das torres do complexo. Se não houvesse esse preparo, seria uma calamidade.

Como você avalia o atual momento favorável do mercado imobiliário no Brasil?
O mercado imobiliário é um mercado de soluços - e isso, novamente, no mundo inteiro. Quando o setor é cíclico, você não pode fazer projeções sempre acreditando que um cenário maravilhoso vai continuar. Claro, não há nada de mal em aproveitar o bom momento. Mas não podemos ficar acreditando que o crescimento continuará a ocorrer nas taxas atuais. Vai haver um período de abrandamento. As pessoas sabem disso, só ficam prorrogando, achando que não vai ser agora.

O desenvolvimento tecnológico pode sair ganhando com essa onda de crescimento?
No Brasil tentou-se várias vezes implementar tecnologias inovadoras que dependiam de escala, e elas fracassaram. Quando se analisa uma tecnologia no âmbito doméstico, que exige investimentos, o risco de implantação é muito elevado. Já é diferente com o setor de equipamentos. Nas atuais obras de infra-estrutura está havendo uma revolução tecnológica, viabilizada porque o fenômeno se dá numa escala global. As empresas que investem nisso olham para o mercado mundial, têm uma escala garantida - se um país está em baixa, o outro está em alta.

Que perfil profissional a construção civil irá demandar no futuro?
O básico é que seja um grande especialista na sua matéria. Aí vem a necessidade de uma visão social, humana, ecológica. Hoje ser cidadão, informado, com um universo de conhecimento ampliado, é mais do que fundamental principalmente num setor como o da construção. É preciso que o profissional da construção tenha uma percepção crítica que vá além de um "mundo de fadas" de se acreditar muito em números, ensaios técnicos, na análise de um corpo-de-prova.


Acha que os profissionais seguirão por esse caminho, de fato?
Não sei se na nossa geração vamos ver esse progresso. Acredito que possa ser em outra geração. Sou muito realista quanto a isso. Mas otimista na medida em que ainda acredito na capacidade do ser humano em aprender.

Que balanço você faz do movimento pela qualidade na construção, ocorrido nos últimos 15 anos?
Começamos a discutir qualidade na década de 1980, dentro de um conceito mais amplo, que envolve tanto aspectos técnicos como de gestão da cadeia produtiva. Apesar de alguns percalços que qualquer movimento dessa natureza enfrenta, a meu ver o saldo foi extremamente positivo. O que talvez não esteja tão amadurecido é o movimento pela racionalização do trabalho. Não por falta de investimentos, mas pela dificuldade da pulverização do setor, que acolhe constantemente empresas despreparadas. Isso no mundo inteiro, não só no Brasil.

Que mudanças sofreu o perfil dos gestores do setor?
O que tem havido, principalmente nos últimos 20 anos, é a exigência do papel do gestor em si, com foco que transcende a preparação técnica. Lembro-me que era comum, durante a seleção de um coordenador de obras, o crédito ao perfil e à quantidade de obras realizadas pelo profissional. É uma visão totalmente errada. É preciso que haja um panorama muito mais amplo, uma visão de equipe. Um segundo passo, que também passou a ser cada vez mais necessário, é a atenção ao mundo externo - as comunidades, toda a parte de meio ambiente. A pressão que começou a existir nesse sentido, nos últimos dez anos, foi brutal.

Ainda nessa vertente evolutiva, o que se pode dizer da gestão do conhecimento?
A gestão do conhecimento tem uma característica particular que vale ser ressaltada. Há uma tendência de pessoas e empresas não olharem o lado negro da sua experiência. Os erros são escondidos debaixo do tapete. Perde-se um know-how extraordinário com isso. O setor vive de imprevisibilidades, e quanto mais o profissional abre sua cabeça para um contexto geral e aprende com seus erros, mais ele tem a capacidade de diminuir essas imprevisibilidades.


Por Thiago Oliveira
Fonte: Construção mercado

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